Milhares de impressões sobre “We Need to Talk About Kevin” começaram a pipocar no instante em que os primeiros acordes de “Locomotive Breath”, do Jethro Tull começaram a tocar, trazendo o recap da sétima temporada. Todos nós temos direito a opinião, mas temos o dever de aceitar que nem todo mundo pensa como a gente. Dentre as várias críticas ao episódio publicadas por jornalistas especializados internacionais, selecionamos uma de uma articulista conceituada e que nos pareceu sintetizar bem o que a maioria pensa, além de ter feito a advogada do diabo (ou de Sam) em alguns momentos. Eis o que pensa Laura Prudom, do Huffington Post (original aqui). Esperamos que gere uma discussão sadia e abra teorias para a temporada, que está só começando.

‘Poxa, Vicki, mas isso é do episódio da semana passada, por que publicar tanto tempo depois?’ Dá uma olhada no tamanho da criança. É, pois é. Nos vemos do outro lado! Tradução minha e da Clarice, meio a meio. Obrigada, Cla!


Em termos de temática, o episódio foi nostálgico de maneiras que a 6ª e a 7ª queriam ter sido, mas quase nunca conseguiram. Pareceu que tivemos mais a sensação dos meninos na estrada, seguindo pistas da maneira como faziam na 1ª temporada, antes que o querido finado Bobby e sua biblioteca de folclore começasse a fazer todo o trabalho de pesquisa para eles. 

Vimos Sam usando seus truques de hacker e fazendo Dean pensar que ele estava falando grego; os irmãos brigando de novo sobre regras de uso do carro; Sam comprando instintivamente um hambúrguer com fritas para Dean porque ele conhece o irmão bem demais, e as picuinhas e respostas rápidas que fizeram falta nos últimos anos. Carver tem uma compreensão excelente das vozes de Sam e Dean mesmo depois de ter passado tanto tempo longe do show e é bom ver um episódio acertando o equilíbrio correto entre drama e humor novamente, após um bom tempo de roteiros irregulares em termos de tom ao longo das últimas temporadas.

“We Need To Talk About Kevin” também ecoou algumas escolhas narrativas dos anos anteriores, invertendo a situação da 6ª temporada que viu Dean tentando viver uma vida normal enquanto Sam estava preso na jaula de Lúcifer. O retorno de Dean do Purgatório não teve a mesma gravidade que seu retorno do inferno, mas Ackles fez um trabalho fenomenal ao transmitir a energia crua e nervosa de Dean – Dean parecia estar no limite a cada cena, incapaz de se ajustar à realidade de estar “seguro” depois de lutar pela sobrevivência contra as coisas que um dia caçou. Nenhuma cena exprimiu essa tensão tão eficientemente quanto aquela em que ele examina a máquina de salgadinhos e chocolate, subitamente impressionado pelo conceito de ter escolhas novamente. Ackles comparou o retorno de Dean com o filme “Guerra ao Terror” e a forma como o personagem de Jeremy Renner tinha dificuldade em se re-acostumar com a vida de civil após voltar da guerra e as escolhas de Ackles no episódio deixaram todo o trauma e estresse aparente sem que Dean tivesse que dizer uma palavra sobre isso. Carver também conseguiu capturar a mente de Dean de forma mais bem humorada como a gratidão surpresa que sentiu quando Sam pediu o hambúrguer – um momento sutil que ilustrou o quanto esses dois irmãos se conhecem bem.

Também me surpreendi com quanto gostei da apresentação de Benny. O show tem um histórico instável na apresentação de personagens (embora faça um trabalho muito melhor com personagens masculinos do que femininos), e minha primeira reação foi comparar o vampiro a Gordon Walker. As situações são idênticas, Dean imediatamente simpatizou com Gordon e sentiu-se inclinado a confiar nele como caçador, enquanto obviamente ficou mais cauteloso com Benny, depois de seu primeiro contato no Purgatório, mas eu suspeito que os arcos de Gordon e de Benny terão em comum uma trajetória similar (e não só pelo fato de Benny ser um vampiro).

A relação deles aparentemente vai se desenhar em muito mais detalhes por flashbacks, mas Benny obviamente é uma grandeza com impulsos cruéis e monstruosos (uma vez que não parece nem um pouco altruísta e controlado como Lenore e aparentemente gosta de espreitar funerais) e agora que estão aqui da lado de cima, Dean parece compreensivelmente relutante em deixar o vampiro participar de sua vida cotidiana. Meio que um “o que acontece no Purgatório fica no Purgatório”, mas isso é por conta de Dean ter feito coisas das quais se envergonha ou porque acha que Sam vai julgá-lo por trabalhar com um vampiro? Meu palpite é no primeiro.

Tudo isso se funde em um dos principais mistérios da primeira metade de temporada: O que aconteceu com Castiel? Dean relutou tanto em entrar em detalhes com Sam que algo muito sério certamente aconteceu, como algo de que Dean se sente culpado. Ficou claro que Dean estava concentrado unicamente em encontrar Cas (ou “o anjo,” como se referiram a ele todos no Purgatório) ao longo de seus primeiros dias em território selvagem, especialmente quando se recusou em aceitar a rota de fuga de Benny se Cas não fosse parte do acordo. Será que Benny virou Dean contra Cas ou teria ele colocado o anjo em perigo para abrir caminho para sua própria fuga? Talvez nem fosse possível para Dean carregar mais que uma alma de volta consigo, então Benny tratou de ‘dar um jeito’ na oposição? De qualquer forma, estou intrigada em ver tudo se desenrolar, e completamente certa de que Castiel não se foi de vez, independentemente do que houve entre os três.

Como eu disse antes, a parte da ‘busca’ da nova temporada me chama a atenção, e não só porque é uma volta aos primórdios. Já aprendemos por experiência que vilões que têm uma ligação pessoal com os Winchester são antagonistas mais eficientes que inimigos aleatórios, como Eve e os Leviatãs, por isso Crowley está perfeito na posição de ameaça real para os rapazes, por conhecê-los há tempo suficiente para saber seus pontos fracos. Também me intriga a ideia de fechar os portões do inferno como um arco para a temporada toda, especialmente porque parece que Carver tem ideias o suficiente para fazer esse enredo enveredar para outros problemas que podem sustentar futuras temporadas. O plano de cinco anos de Kripke pode ter terminado em sorte e julgamento em partes iguais, mas eu sempre achei que o show se sai melhor com uma linha seccionada por temporada e os inimigos dos últimos dois anos não tiveram a mesma potência que Azazel ou Lúcifer.

Também gostei de a nova dinâmica que Kevin trouxe para o episódio – ele não apenas serviu como o catalisador para trazer Sam de volta ao negócio da família (com um empurrão de Dean, claro), como também demonstrou um tempo de comédia excelente. Sua fala “tem um demônio dentro de você e você está indo pra sua segunda opção de faculdade” foi certamente a que conseguiu melhor reação por parte dos repórteres que assistiam à apresentação fechada.


De muitos modos, como eu disse em minha preview do episódio, Kevin assumiu o papel do cara comum que Sam ocupava na primeira temporada; agora que Sam e Dean estão endurecidos por todos os horrores que testemunharam e crises que evitaram, os perigos das caçadas ainda são novos para Kevin e, embora ele esteja surpreendentemente autossuficiente após ser deixado à própria sorte, ele ainda tem aquela inocência que os Winchester perderam há muito tempo. É bom ver esse clima de volta, e esperemos que isso gere oportunidades novas para os rapazes interagirem com ele e entre si. Por mais que amemos a ligação forte entre Sam e Dean, personagens coadjuvantes ainda são essenciais para impedir que as histórias fiquem estagnadas – após sete temporadas, vimos Sam e Dean trabalhando juntos, em conflito e interagindo em quase todos os cenários imagináveis, então é bom ter a perspectiva de alguém de fora, que possa ajudar a moldar sua compreensão um do outro.


Aparentemente, Sam e Kevin já estão se aproximando por meio da relutância em se envolver nas caçadas, enquanto a mente pós-Purgatório de Dean parece estar tão feroz quanto nas temporadas 1 e 2. É difícil dizer se o comportamento de Dean é uma forma de lidar e distraí-lo do que poderia ter acontecido no Purgatório ou se o Purgatório o transformou em um guerreiro mais sanguinário. Seguindo para além da conversa entre Dean e Benny ao final do episódio, na qual o vampiro sugeriu que Dean pode ter curtido a liberdade do Purgatório um pouquinho demais, estou interessada em ver se os roteiristas vão ligar essa sede de sangue ao tempo que Dean passou no inferno e sua aptidão para torturar sob a tutela de Alistair. Sam teve problemas com sua maldade inerente graças ao vício em sangue de demônio e seu destino como receptáculo de Lúcifer, mas Dean tem impulsos igualmente sombrios que ele parece ter lutado para ignorar ao longo dos anos.


O que nos leva ao “ruim” ou, pelo menos, à parte mais controversa do episódio: como Sam foi apresentado na estreia. Recebi manifestações de um número grande de fãs via Twitter e por outros canais e o maior porém para muitos parece ter sido a sugestão de que Sam não procurou Dean depois que esse desapareceu. À primeira vista, eu já sabia que essa decisão dos roteiristas iria causar uma reação enorme, porque faz Sam parecer antipático.

Foi isso que Carver (que escreveu a premiere) disse sobre a decisão:
“Certamente, quando voltei para o show, estava olhando para um panorama que foi estabelecido por Bob e Sera, que eles graciosamente me deram, e eu tinha que seguir da fala de Crowley “Você está realmente sozinho.” Então nós mergulhamos nessa ideia: “O que isso significa? Quer impacto isso tem em alguém e como isso pode afetar sua ideologia?” Nós falamos disso no episódio 1. Dean fala sobre isso: “Nós sempre ignoramos esse conselho que damos um ao outro”. E o que aconteceria se alguém o levasse a sério? Já sobre por quanto tempo Sam vai ter que pagar por isso… Eu acho que uma das coisas que eu mais gosto particularmente nos 13 primeiros episódios é a forma como estamos jogando com a percepção, porque agora Dean está magoado com Sam por causa disso, e o que ocorre quando esses irmãos começarem a descobrir mais sobre o que fizeram nesse ano e essa moeda virar, quem vai ter que se explicar? Então eu acho… todos vão ter sua hora de redenção. Ninguém vai passar muito tempo sendo a vítima.”

Parece que Carver estava só trabalhando com o material que lhe foi dado quando pegou o bastão ao final da 7ª temporada, e talvez tenha lhe soado como a progressão mais lógica a partir da fala de Crowley. Eu posso ver como explorar essa questão pode ser tentador do ponto de vista de roteiro, sobretudo porque Dean e Sam já tentaram e falharam tantas vezes resgatar um ao outro e sacrificar-se, então por que os roteiristas quereriam repisar esse chão mais uma vez, pela terceira ou quarta vez? Por outro lado, é fácil para nós dizer que eles poderiam ter jogado uma fala qualquer para Sam dizendo que procurou Dean por alguns meses e desistiu quando não encontrou pista nenhuma – mas essa desculpa teria mudado alguma coisa?

Eu assumo que não me incomoda o quanto parece incomodar a alguns.


Alerta de vômito verbal: eu concordo que, dado o que vimos da relação dos irmãos até hoje, pareceria pouco provável que Sam não desse nem uma procuradinha por Dean após seu desaparecimento, mas já vimos o luto e a solidão causarem efeitos questionáveis em Sam no passado – como se envolver com uma demônia e começar a beber seu sangue, por exemplo. Fazendo a advogada do diabo, acho que pode-se argumentar que Sam estava perdido e buscava uma âncora, e aí atropelou um cão (trauma em cima de trauma), conheceu uma mulher enquanto estava em situação vulnerável e decidiu agarrar-se à noção errônea de enterrar sua perda embaixo do desejo por um recomeço.


As pessoas lidam com tristeza/pesar de maneiras completamente diferentes, como Dean e Sam têm ilustrado pelos últimos sete anos, e é importante lembrar que ao final da sétima temporada Sam estava saindo de um período particularmente conturbado. Ele passou meses sendo importunado por alucinações de Lúcifer e pesadelos sobre o seu período na jaula, quase não comendo ou dormindo ou funcionando normalmente, então não parece tão irrealístico para mim que o fato de perder Dean novamente seria o suficiente para mandá-lo para um lugar escuro e destrutivo (isso foi o aconteceu com Dean quando perdeu Castiel e Bobby no ano passado).


E vou repetir o que disse na preview da estreia, porque isso resume os meus sentimentos de uma maneira bem imparcial: Sam sempre desejou uma vida normal, então sem ninguém de sua família, acredito que não esteja assim tão fora do personagem agarrar algo mais pé no chão e querer se distanciar da vida que lhe tirou todos aqueles que amava.


Dean, por outro lado, sempre duvidou de sua capacidade de fazer qualquer coisa a não ser caçar e estar com sua família (e essa é a razão pela qual a tentativa dele de uma vida normal na sexta temporada falhou). Na temporada passada, a falta de propósito adicionada ao luto o fez tornar-se mais descuidado e suicida, ao passo que nesta temporada, a sua estada no Purgatório parece ter cristalizado a sua decisão de voltar ao “negocio da família”. Ele está completamente focado na caça e Sam está relutante em se envolver novamente, da mesma maneira que eles estavam na primeira temporada, mas parece que todas essas decisões foram motivadas por tudo que eles passaram até agora. Para mim é uma maneira sutil de Carver reafirmar como esses dois homens são tão díspares como personagens, enfatizar o quanto são diferetes, mas igualmente críveis ao lidar com as perdas e os traumas. Eles nunca reagiram da mesma maneira a qualquer situação, o que faz deles um excelente time, mas eu acredito piamente que esta temporada é um exercício em fazer com que eles fiquem juntos como adultos com um novo propósito, independentemente de como eles começaram a temporada. Você pode discordar completamente desta afirmação, tudo bem, mas esta é a minha maneira não muito elegante que resumir que não vou desistir da temporada baseada em algo que aconteceu no começo dela.


Além disso, eu não acredito que Dean fique zangado por muito tempo, porque lá no fundo ele sabe que ele e Sam sempre tiveram opiniões diferentes sobre a caçada. Para Dean “o negócio da família” sempre pareceu algo como um direito inato, e algo para o qual John começou a prepará-lo desde que teve idade suficiente para administrar esse tipo de expectativa. Sam, por outro lado, sempre se rebelou contra o que era chamado seu destino e enfatizou a livre escolha ao invés do dever, uma atitude que Dean começou a compartilhar na quarta temporada. É também importante questionar se Sam tem se “segurado” ao conceito da perda da normalidade por todos esses anos, desde que a morte de Jessica e ele ter desistido da advocacia. Ele também sentiu o sabor da vida “normal”, mesmo que brevemente, então talvez ele achasse que devia a si mesmo uma segunda chance, principalmente porque acreditava que John ou Dean não viriam desta vez para arrastá-lo de volta às caçadas.

Uma das coisas mais interessantes na série é a forma como fez as posições dos irmãos mudarem ao longo dos sete anos – na temporada passada, Dean aparentava ver caçar como sua única opção na vida e que, até que desse um jeito de se matar, ele seguiria lutando contra monstros porque era só no que acreditava ser bom – um tipo de auto-depreciação potente que remonta à observação do Demônio dos Olhos Amarelos em “Devil’s Trap”, que Sam e John “não precisam de você. Não como você precisa deles.”

Sam, por outro lado, parecia estar mudando de ideia quanto ao fato de que salvar a vida das pessoas fazer parte do seu destino não era assim tão ruim – mas a caçada nunca definiu quem ele era da mesma maneira como define Dean, numa maneira na qual Sam sempre conseguiu interagir com as pessoas normais de uma forma que Dean nunca conseguiu.

E já que Dean não poderia fisicamente aguentar a sua rota auto-destrutiva sem fazer com que o show se transformasse num lugar muito depressivo (como fez algumas vezes durante a sexta e sétima temporadas), a  partir de uma perspectiva narrativa, o ponto de vista de Sam teve que evoluir. Independentemente do fato de acharmos que esta é a decisão mais certa tomada pelos escritores, acredito que até o final desta temporada os irmãos estejam vendo as coisas pela mesma perspectiva e de uma forma que nunca vimos antes, o que fará com que o seu vínculo se torne cada vez mais forte. Finalmente, se concordamos ou não com as decisões dos escritores, esse foi o rumo tomado por eles nesta temporada e nós poderíamos debater até o final dos tempos a caracterização de Sam, mas isso infelizmente não vai mudar a maneira como esta temporada começou e eu não vou jogar a toalha e boicotar o show por causa disso.

Eu estou excitada em explorar as novas facetas de Sam e Dean que ainda não foram vistas antes e quero saber como é um Sam “domesticado” e despreocupado –  e Deus sabe que ele merece um tempo depois ser praticamente esmagado por um destino bíblico pelas últimas sete temporadas. E estou muito ansiosa em ver Dean com uma renovada claridade de propósito – pelo meio do caminho ele perdeu de vista a importância da parte “salvar pessoas” do lema da família e estava apenas indo por ir, mas o show quer nos lembrar que o mundo precisa que Sam e Dean lutem por ele (com grandes poderes… bla bla bla”) e parece que Carver quer que Sam e Dean se lembrem disso também. Então para onde quer que a estrada leve os Winchester daqui para frente, eu sei que estarei junto na jornada. E você?