E aqui estamos nós para falar do episódio 9×19. E já aviso desde já, na minha análise ninguém vai ler a palavra ‘filler’, simplesmente porque não gosto da forma que as pessoas falam sobre isso. Essa palavra, assim como outras duas recorrentes no fandom, já ‘deu no saco’. Portanto, não, não vou caracterizar e muito menos nomear esse episódio assim.

Minha impressão geral sobre o episódio: bom, gostoso de assistir, sutilezas aqui e ali sobre o que anda acontecendo na série, bem escrito, coerente, elenco entrosado e direção muito boa. Foi um episódio focado no arco mítico da temporada? Não, não foi. Foi um episódio que ‘descontinuou’ a história? Não, não foi. Foi um episódio de tirar o fôlego? Não, não foi. Mas foi um episódio que serviu bem o seu papel de dar uma ‘respirada’ na reta final da temporada, a qual certamente virá com tudo para ‘arrebentar a boca do balão’. Muitos podem dizer: o timing foi ‘errado’, foi um episódio que não tem propósito algum no foco atual da relação dos irmãos e tudo que está acontecendo com eles, foi um episódio que poderia existir em qualquer temporada, bla bla bla. Não vou discutir isso, até porque cada um tem motivos para defender o que quiser. Mas tenho o direito de achar que o episódio foi bom sim, foi no timing certo sim, tem relação com os irmãos sim.

Vamos lá, gente. Eu adoraria que Supernatural tivesse TODOS os episódios focados no arco da temporada, mais especificamente, eu amaria que TODOS os episódios fossem sobre a Marca de Caim e seus efeitos em Dean, mas não é possível desenvolver uma série de 23 episódios focados só nisso. Ninguém aguentaria. A mesmice iria nos dar ânsia de vômito de tanto enjoo. Portanto, vamos aceitar que mais da metade da temporada sempre será sobre episódios ‘fora’ do arco principal. Não que não possa ter cinco minutos, dentro de quarenta, sobre o arco mítico. Mas é impossível ter 23 episódios falando só sobre mitologia. No decorrer do tempo é necessário e importante fugir um pouco disso. Até pra gerar expectativa e suspense. Portanto, de minha parte, nenhum drama sobre isso.

Voltemos ao episódio. Eu acho que a maior ‘surpresa’ foi a volta da Xerife Jody Mills. Mills é uma personagem forte, interessante, carismática e que criou um laço, meio que materno-amiga-parceira com os meninos. Ela não tem aquele jeitão maternal de Ellen, mas Jody Mills é uma amiga fiel dos meninos. Amiga essa também do nosso amado Bobby. Sem cotar que Kim Rhodes é uma ótima atriz que tem uma química muito boa com os meninos e está familiarizada já com todo processo da série. Sempre é um prazer ver sua Jody Mills em ação.

Interessante notar que Jody Mills parece ter um laço e uma afinidade maior com Sam do que com Dean. Não que ela e Dean não se gostem, mas ela e Sam são muito próximos, eles ficam à vontade um com outro, eles apreciam a companhia um do outro, compartilham momentos um com outro. Falo isso, porque a maioria dos personagens secundários desenvolve um relacionamento mais ‘fechado’ com Dean, e Mills é uma das poucas que realmente interage mais com Sam. Acho bacana isso.  Gostaria muito de ter visto Sam compartilhar com ela algumas de suas preocupações no momento. Acho que ela seria uma excelente conselheira para ele.

Ao longo do episódio vimos bastante o lado conflituoso, lutador, sobrevivente de Jody. Seu lado bem humorado. Seu lado profissional. Vamos combinar que durante essa jornada dos meninos, ter alguém da lei do lado deles, sabendo o que eles fazem é uma baita ajuda, um conforto até. Para eles é bom olhar Jody e ver que ela ainda está lá, que ela eles puderam salvar e farão de tudo para continuar desse jeito. Ela não foi outra perda ao longo do caminho. Eles já lidam com perdas demais, e acrescentar Jody na lista não fará bem nenhum. Nem a eles, nem a história da série. Vou fazer um adendo aqui e reclamar: nunca, jamais, jamais irei perdoar Sera Gamble por ter matado o personagem de Bobby. Mesmo que Death’s Door seja um episódio lindíssimo, mesmo que os produtores disseram que foi algo planejado, que foi épico, bla bla bla, eu simplesmente não concordo e aceito jamais que isso era algo necessário. Mas isso são águas passadas, voltemos ao que interessa no momento.

Logo no início do episódio vemos uma garota sendo presa. E a partir daí vamos descobrindo que ela não é um monstro, mas foi criada por eles. Ela cresceu no meio de vampiros, foi alimentada por eles, foi ‘protegida’ por eles. Ela era uma criança quando esses seres a roubaram e era claro que com isso, ela desenvolveria um sentimento de ‘família’ com eles, mesmo que essa relação era muito disfuncional e nada saudável. Annie/Alex só conhecia aquela vida portanto era perfeitamente normal que ela os vissem como sua família. Quem eram os monstros eram os vampiros e não ela. Ela apenas tinha emoções, algo inerente aos humanos que os vampiros desconhecem e desprezam. E claro que a humanidade de Annie/Alex uma hora iria falar mais alto. Medo, culpa, raiva, dúvida, frustrações, decepções, vontade própria, tudo isso iria explodir um dia e Annie/Alex não saberia o que fazer, exceto seguir seu instinto em buscar algo que ela sabia que precisava ser modificado, algo que não ‘poderia pertencer a ela’. Mesmo que Annie/Alex foi um personagem secundário, ela mostrou isso de forma clara: o que a vida com pessoas tão diferentes de você pode te transformar, mas ao mesmo tempo não existe nada como ter força de vontade, foco e discernimento para seguir onde sua humanidade te leva.

Podemos então fazer um paralelo da história dela com os meninos. De certo modo Annie/Alex, Dean e Sam são parecidos. Eles têm vivido com monstros há muito tempo. Eles têm desenvolvido sentimentos, sensações, impressões e comportamentos distintos devido à essa relação tão estreita que eles tem entre o lado humano e a convivência com seres tão diferentes deles. Eles têm de certo modo, perdido um pouco de humanidade ao longo do processo, mas também eles têm aprendido que você não perde completamente isso, sua humanidade, ao menos que você decida que você quer perder.

Claro que se você comparar os meninos, Annie/Alex e Jody, verão o quanto cada um deles ainda tem de humanidade. Olhando Annie/Alex veremos que ela anseia em buscar algo novo do que ela conhecia até então. Jody ainda tem muitos traços de humanidade nela, como o instinto materno, protetor, ela tem o sentimento de esperança em que as pessoas são boas e merecem uma segunda chance. Dean e Sam estão num processo conflituoso no momento, mas ambos sabem que um ser humano ainda conta no processo de toda essa lama que eles estão enfiados. Sam, como sempre, ainda tenta ver o lado ‘humano’ das pessoas; Dean, por outro lado, está num processo de profunda mudança, mas o que o torna Dean, ainda é o desejo de ‘caçar coisas, salvar pessoas’. Ainda que essa sua visão de vida tenha sido um tanto ‘prejudicada’ pelos recentes acontecimentos, Dean ainda se apega a seu lado humano de que quem merece morrer sem dó nem piedade, são os monstros. Humanos no processo pode ser uma perda necessária, mas essa perda não é o alvo. Eu sei que isso soa frio e muito distante do que eram os meninos no começo, onde eles tentavam a todo custo, não matar seres humanos, mas como eu disse antes, eles convivem há tempos demais com monstros para ter essa característica de ‘jamais matar pessoas’ ainda preservada.

Triste, mas compreensível. E o melhor é que esse é o foco todo desse imbróglio que estão metidos os meninos. Afinal sabemos que Dean e Sam não estão no melhor da convivência agora, que eles estão juntos, mas não estão ‘de verdade’. Que cada um carrega mágoas, dores, arrependimentos, lembranças. Que cada um tem seus motivos para se sentir do jeito que estão se sentido, mas eles ainda têm que lembrar, no meio de tudo isso, que eles são seres humanos. Que eles lutam por algo, que eles estão aqui por algo, que eles têm um legado. Acrescente a isso, a luta interna de Sam para se libertar de um sentimento de raiva-remorso-dúvida-decepção-mágoa que o consome; e a luta de Dean para conviver com a mágoa-raiva-culpa-ingratidão-incerteza-medo e agora a fúria assassina de uma marca que ele carrega e que o está mudando justo num momento que ele se sente mais sozinho e rejeitado que nunca. Não é pouco. E dá um compêndio de psiquiatria.

E é exatamente aqui que eu defendo o episódio onde muitos acharam que é um episódio ‘fora de hora’. Não acho que era fora de hora. Acho que foi uma escrita muito sutil, muito delicada e muito bem feita. Porque esse episódio mostrou num primeiro momento, apenas dois irmãos caçadores ajudando uma amiga a caçar monstros e a possibilidade de salvar um ser humano. Mas no fundo o episódio foi uma lição: de somos humanos ou perdemos toda a capacidade de ser?

Teve momentos de uma crueza extrema quando Dean e Sam estão torturando o vampiro. Ou quando Dean está lutando e acaba matando o vampiro depois de um “Look at me, bitch”. Onde pudemos ver a que ponto anda o ódio de Dean, a que ponto ele está de deixar todo esse sentimento de pura fúria tomar conta. Não podemos deixar de lembrar que Dean no purgatório, se sentiu ‘puro’ ao ter que lutar contra tanto monstro para sobreviver, que ele criou um laço de amizade com um monstro e aprendeu a diferenciar certas coisas, mas que com a marca de Caim, marca essa que sabemos apenas que quem a ‘criou’ foi Lúcifer e que a função primordial é criar assassinos implacáveis, algo dentro dele está mudando profundamente. E nem ele, e nem nós sabemos onde isso vai dar. Tenho que confessar que amo muito tudo isso! 🙂

Também pudemos ver a que ponto anda o receio de Sam. É como se Sam estivesse caminhando no escuro aqui. Onde ele não sabe mais o que esperar de Dean, o que está acontecendo. É como se ele estivesse vendo algo acontecer diante de si, mas ele não sabe o que. Sam está totalmente perdido. Soma-se a isso a iniciativa dele de ‘ser honesto’ com Dean justo nesse momento e podemos imaginar onde isso vai chegar. Como eu disse no meu twitter, estou lixando as unhas e assistindo de camarote.

E claro que dentro do episódio todo, a coisa que mais se destacou, ao menos para mim, foi a frase de Dean: “É, eu sei. Você não faria o mesmo por mim”. Dean disse isso naquele tom de ‘não tô nem aí, isso não me magoa mais’, mas é como se ele estivesse dizendo ‘eu ainda não esqueci o que disse e estou dizendo pra você foda-se, eu ainda faria’. Para mim ficou mais claro que nunca que Sam pode falar o que quiser, dizer o que quiser, sentir o que quiser, Dean ainda fará qualquer coisa por ele, mesmo que isso o machuque mais que qualquer coisa do mundo. Mesmo que a cada vez que ele mate um monstro para salvar Sam, ele saiba que está cometendo ‘um pecado imperdoável’ na visão de seu irmão, Dean ainda dará a sua vida por Sam, e foda-se o que Sam Winchester pensa ou acha. Porque Dean é assim e pronto. Goste ele ou não, faça Sam careta ou não, Dean é assim. E como eu já falei lá atrás: “Get over it”.

Mas Sam não está em condições de focar nisso naquele momento e alerta Dean sobre Jody em perigo. O modo protetor de Dean ativa e ele sai em busca de sua amiga, porque outra perda no processo ele não tem condições de aceitar, certo? Mas dessa vez não foi nossos meninos que salvaram o dia. Dessa vez foram outras pessoas. Uma ‘monstrinha em formação’ e uma humana. E aqui está outra bela lição do episódio. A capacidade de cada um de fazer escolhas. Escolhas essas que podem mudar para sempre a vida de outrem. Na verdade essa sempre foi uma constante em Supernatural. As escolhas feitas.

Annie/Alex escolhe acabar com tudo aquilo que um dia ela pensou ser família. Annie/Alex percebe que ela nunca foi amada, nunca foi dada o direito de ser quem ela é. Jody mostrou a ela, ao longo do episódio, que ela poderia ter outra escolha. E ela escolheu. Escolheu ser humana. Ter emoções. Cometer erros, acertos. Ter dores, alegrias, prazeres, decepções, frustrações. Ela escolheu sentir. E Jody foi lá e literalmente decepou quem tentou tirar isso de Annie/Alex. Jody a salvou e ao mesmo a protegeu ao pedir a garota que simplesmente não visse a fim de que não levasse culpa consigo.  Acho que vejo uma analogia vindo por aí, mas prefiro esperar para ver.

Chegamos ao fim do episódio e novamente vimos Sam tentando entender o que anda acontecendo com Dean. Tentando de alguma forma chegar no seu irmão. Tentando se manter na linha que ele mesmo criou de ‘vamos apenas caçar juntos e deixar de lado essa coisa de irmão’. Mas Sam a cada dia parece perceber que falar é uma coisa, fazer é outra completamente diferente. E é claro que Dean, orgulhoso e cabeça dura que é, não vai dar o braço a torcer tão fácil. Ele vai continuar nessa de ‘ok, estou fazendo apenas o meu trabalho. Foda-se o resto’. Só nos resta esperar onde isso vai dar. E confesso que estou esperando. Ansiosa.. Que venha a reta final da temporada, com spinoff e tudo!

 

Algumas considerações a mais…

– Não gostei do título do episódio “Alex Annie Alexis Ann”, mesmo que isso tenha sido uma referência ao filme “Martha Marcy May Marlene” e que no geral tenha alguma relação ao mote do episódio.

– O que era aquele cabelo da Mama Vampiro? Kkkk Me senti nos anos 80, quando se ‘frizava’ as madeixas…

– Dean com o seu “Look at me bitch” como sempre provocando em mim emoções perturbadoras.. kkkk

– Adorei que eles se lembraram que Dean já foi vampiro e que foi ‘curado’.

– Os efeitos especiais da série estão cada vez melhores.

– E para finalizar, quero Caim de volta! 🙂