Sim, isso é um desabafo.
Faço parte de um site em que oito pessoas dedicam parte de seu tempo diário para amar e compartilhar a paixão que têm por uma série, enquanto outros o fazem por um músico, uma banda, um time de futebol, uma causa. Posso afirmar, com algum grau de certeza, que os meus sete colegas concordarão comigo, ainda que por outros N motivos, os quais adorarei ler discorridos nos comentários.
Parte da equipe do SPNisLife forma também parte do Fã Clube Supernatural Brasil, que teve sala temática no Up!ABC deste último fim de semana, em Santo André, na grande São Paulo. E ao longo desse evento, como em todos os outros de que participamos, em meio ao contato com fãs novos e antigos (jamais “posers”), entre curiosos e alguns desinteressados, aparecem os “ex-fãs”. A categoria vem diminuindo, mas existe. E faz mais barulho que shipper de Destiel, porque precisa ser ouvida, porque precisa que os roteiristas ouçam seu apelo de que a série tem que acabar.
A gente tem que ler isso aqui também. Pois é, em um blog de fãs, não menos que isso, em um veículo mantido por pessoas que, se forem como eu, às vezes se perguntam se seu(sua) carreira/família/conta bancária/namoro/vida social/sono não teriam avanço significativo se não se dedicassem tanto a um blog sobre Supernatural, temos que ler que “SPN já deu o que tinha que dar”. Ora, vá tentar dizer ao brutamontes do seu vizinho que o filho dele tinha que morrer porque é feio. Tente. A reação dele provavelmente será a mesma que eu gostaria de ter liberdade de meter na sua fuça. Eu avisei que era um desabafo.
Minha reação se deve ao fato de que é fácil detectar o ex-fã. Ele chega e pergunta, na lata, se eu (de camiseta, bótons, corrente, pulseira da Mary, coleção pessoal disposta sobre a mesa e cosplay de Abaddon, em uma sala que leva em torno de duas horas para ser montada) não acho que “a série está uma bosta”. Três parágrafos depois, eu finalmente explico por que não, eu não acho que Supernatural está uma bosta.
Começo por explicar meu post no twitter, sobre o “saldo” do evento: alguns “fãs” parecem estar cagando para os personagens.
Costumo perguntar a quem diz que a saga dos Winchester deveria terminar após “Swan Song” ‘qual é o problema do ex-fã com Sam e Dean’. É simples. Quem queria que a série acabasse ali não tem e nunca teve o menor apego pela história dos irmãos. Curte as caçadas e o monstro da semana e tem meu respeito, porque ninguém é obrigado a gostar de SPN pelo mesmo motivo que eu. Mas eu juro que nunca ouvi essa resposta. Ninguém jamais disse “pffff, danem-se os Winchester”.
Todos dizem adorar Sam e Dean, assim como Bobby, em especial. Castiel já é uma outra história. Sinto muito, mas ele não faz parte do meu argumento desta vez.
Nesse ponto, eu posso dividir os ex-fãs em outros dois grupos distintos.
Os que adoram os irmãos, como poderiam adorar quaisquer outros caçadores: se o negócio é matar monstros à velocidade de entrega do McDonald’s, meio como na primeira temporada, tanto faz se Dean e Sam são “fodões”. Bobby, Gordon, Ellen, Jo e Daniel Elkins faziam isso (quase) tão bem quanto eles. Para esses, a primeira temporada era o paraíso e eu me pergunto por que reclamam tanto dos tais “fillers”, já que esses normalmente são uma caçada isolada… que lembra os episódios da primeira temporada. “Mas a série tinha que acabar porque saiu do arco do Kripke”. Pela última vez: se o bobalhão do Kripke tivesse mantido sua boca fechada (como ele mesmo só falta admitir com essas palavras), A-POS-TO que metade do fandom não diria isso, porque simplesmente não saberia que um dia ele pensou em somente cinco temporadas. Todo dia tem reboot de quadrinho e série e filme de super-herói e desenho animado e todo mundo adora. Reboot, em tradução livre, é reinício, voltar ao zero. Jensen já usou essa palavra para descrever SPN pós-Swan Song. Pense em “reinício” e seja feliz! Eu nem nisso penso, porque desde a oitava temos visto fatos que aprofundam informações e acontecimentos que remontam ao início e isso é a definição de canon (fato ocorrido na série e aceito como realidade, ainda que ‘fora das câmeras’, como o conteúdo de “O Diário de John Winchester” e “O Guia de Caça do Bobby”) . Aceite.
Do outro lado, estão os fãs que amam os irmãos e o arco da série. Esses realmente me confundem, e quando eu tenho tempo, o papo é bom: Se você AMA os Winchester, como pode gostar da ideia de Dean ser um bêbado semi-funcional para o resto da vida e Bobby seguir em frente sem seus “filhos que cresceram como heróis”, enquanto Sam é torturado por toda a eternidade numa jaula com Lúcifer? Pois é, a maioria termina por me dizer que nunca tinha pensado nisso. Seja mais feliz ainda deixando de ver SPN e indo assistir qualquer outra coisa, mas não me diga que aquele seria um bom final para a saga dos meus meninos.
Dean diz, quando re-encontra Sam no início da sexta temporada, que tem bebido todos os dias, executado qualquer trabalho em que o aceitem e vivido uma semi-vida desde que o caçula se sacrificou para livrar a humanidade do Apocalipse. ISSO É VIDA??? “Ah, mas ele tinha a Lisa…” Você assiste a mesma série que eu??? Desde Cassie, DESDE ROBIN, a gente sabe que Dean não troca a família (leia-se Sam, para quem ele foi mãe, pai e irmão) por nada nem ninguém. E quanto a Sam?! Cara, é preciso ser muito sádico para dizer que adora um personagem e achar “muito maneiro” pensar em sua alma sendo torturada para sempre por ninguém menos que o próprio Lúcifer. A gente viu uma mínima amostra de sua capacidade naqueles poucos episódios em que Lulu dizia a Sam que sua vida era uma miragem criada por ele. Uma amostrinha. Bem, basta dizer que apenas voltando sem alma ele seria capaz de suportar viver sem as lembranças do terror que viu no andar de baixo. “Ah, Dean ficou lá 40 anos e voltou bem.” BEM?????? Se Dean voltou como voltou do inferno cotidiano, imagine Sam, que ficou em uma jaula com o chefão, depois de deter o plano de toda uma vida do chifrudo. Não, você não assiste à mesma série que eu.
Isso sem falar em outros méritos das temporadas que viriam.
Não discuto que a sexta temporada foi uma temporada menor, assim como “A Ameaça Fantasma” foi um episódio menor de Star Wars e Val Kilmer e George Clooney protagonizaram filmes “menores” do Batman. Isso ainda a faz muito melhor que muita série por aí, como (insira a porcaria que quiser). O fandom de SPN é crítico, o mais crítico que já vi, mas uma má temporada ainda é uma boa temporada, em termos de SPN. Eu vou morrer defendendo a qualidade do plot e do trabalho de Jared como Sam-sem-alma. Ser tirado da jaula de Lúcifer só seria suportável se Sam voltasse sem a parte que o faria se lembrar da tortura. Isso é uma ideia fantástica! Jensen disse há pouco tempo em uma entrevista que, para ele, foi bastante complicado ter que inverter os papéis na dinâmica dos irmãos, porque o “Sem alma” entre os dois era Dean. Ao que me parece, ele tentou dizer com isso que gostou menos de interpretar esse irmão, mas se Sera Gamble não tivesse tido problemas para segurar as rédeas de tantos plots lançados ali (bons, por sinal, apenas mal desenvolvidos, como as almas e a Mãe de Todos), talvez Jensen tivesse tido oportunidade de ver melhor algo que eu vi: um trabalho excelente dos dois atores para realizar essa inversão.
Como não amar a Morte? Como não amar “Appointment in Samarra”? Como não amar “Frontierland” e “The French Mistake”, “Taxi Driver”, “The Great Escapist”, “Road Trip” e “Bad Boys”, Charlie, as tábuas, Garth e conhecer a infância de Bobby e a história da Colt? E as Cons que os atores fazem até hoje?
Como não respirar aliviado junto com Sam ao vê-lo finalmente encontrar seu lugar na família, quando saber dos Homens das Letras o tirou da situação de “ovelha negra”? Sim, ele caçou a vida toda e sempre o fez muito bem, mas ele enfim se encontra quando o vovô Henry prova que o gene de pesquisador faz parte da família e que ele não é um estranho no ninho. Como não amar Kevin, Crowley viciado em sangue humano? Benny e uma amizade que fez Dean rever seu conceito de “Se é do mal, a gente mata”?
Isso sem contar que eu vivo prometendo fazer um post defendendo a sétima temporada. Uma espécie toda de criaturas do Mal, liderada por um babaca arrogante, escapa do Purgatório, sobe para a terra e trata a humanidade como gado, como simples alimento, é um enredo interessantíssimo. Esse plot, nas mãos de Carver, teria rendido uma crítica social incrível. Mas são águas passadas.
O importante é lembrar que quem abandonou Supernatural na sexta temporada perdeu tudo o que vimos e amamos até aqui. Na minha humílima opinião, um ex-fã só teve a perder. Por teimosia. Por achar que, se deixasse de ligar a TV ou baixar o episódio, estaria defendendo sua certeza de que a série não tem mais o que oferecer. É quase como uma bandeira.
Em suma, Supernatural é tão boa, que um episódio nota 8 recebe reclamações.
Como tudo na democracia, use o seu direito de desligar a TV*. Só não me impeça de ligar a minha.

Carry on e me deixe em paz.

*Ah, você entendeu. Baixar episódio e assistir em stream também valem.